nomadic

body

(2026)

 

 

Processo criativo | Walking art | Fotografia | Vídeo | Desenho

 

 

Projeto apoiado pelo Walking Art Lab e realizado na Armênia.

 

WAL é uma plataforma de pesquisa experimental dedicada a práticas de caminhada através dopensamento espacial crítico e do questionamento

das fronteiras entre

teoria e prática.

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Nas profundezas vulcânicas das montanhas Gegham, na Arménia, o projeto “Corpo Nómade” desenrola-se não como uma mera caminhada, mas como um ritual de imersão na matéria prima da terra. Cada passo dado no solo rochoso e basáltico - carregando o peso de uma mochila que contém o essencial para dias de sobrevivência - transforma a caminhada numa performance onde corpo e paisagem estabelecem um diálogo tenso e primordial. A altitude cortante e o vento seco das altas pastagens tornam-se palco vivo de uma poética que recusa o conforto do ateliê para abraçar a inclemência do real.

O caminhar como processo artístico afirma-se como um ato deliberado de deslocamento geográfico e existencial. Ao percorrer as crateras extintas e os campos de lava que compõem este antigo planalto, o caminhante experimenta uma forma de estranhamento voluntário, onde cada quilómetro percorrido desloca não só a localização física, mas também os limites internos da percepção. O deslocamento, aqui, é o próprio método criativo: caminhar para se perder, e perder-se para redescobrir o corpo como território de afeto e resistência, desafiando a fixidez contemporânea que nos liga a coordenadas estáveis.



A solidão da travessia, no entanto, é pontuada por profundos encontros etnográficos com os yazidis – grupos de origem curda que, durante milénios, praticaram um pastoralismo semi-nómada nas altas pastagens arménias. Ao cruzar-se com estes pastores e os seus rebanhos, a obra encontra o seu espelho humano: enquanto o meu corpo-casa transporta artefactos de campismo modernos – uma tenda sintética, um fogão e rações industrializadas – os Yazidis carregam uma tradição viva de sobrevivência, onde a migração sazonal não é uma escolha estética, mas a própria respiração da comunidade, entrelaçada com flores silvestres, neves tardias e os imensos céus de Gegham. Esta coexistência de temporalidades distintas revela que o nomadismo não é uma relíquia do passado, mas uma chave urgente de leitura do presente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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scoria | 2026

documentação de campo | desenho

 

 

 

shelter | 2026

documentação de campo | fotografia e desenho

 

 

 

Assentamentos de Yazidis - grupos de origem curda que, há milênios, praticam o pastoreio seminômade nas terras altas da Armênia.

 

 

 

Monumentos arqueológicos antigos conhecidos como Vishapakars ("pedras de dragão") são estelas monolíticas de pedra esculpidas durante as Idades do Bronze Média e Tardia (séculos XXIV a XIII a.C.). Eles são exclusivos do Planalto Armênio.

 

 

 

nomadic body | 2026

documentação de campo | fotografia

 

 

 

nomadic body | 2026

documentação de campo | fotografia

 

 

É nesse confronto entre o nomadismo ancestral e a jornada contemporânea que emerge o conceito central de "corpo-casa". A mochila pesada torna-se uma extensão da pele, e a lona da barraca, a membrana protetora erguida sobre a lava fria ao cair da tarde. No entanto, a verdadeira morada não é o equipamento, mas a musculatura exausta, a respiração ofegante e a memória muscular dos passos repetidos. O corpo nômade não busca um lar no destino; ele aprende a habitar o seu próprio movimento, fazendo do deslocamento perpétuo o seu único território fixo — uma arquitetura efêmera de ossos e tendões que se move com a luz do dia e se recolhe na escuridão das estepes.

 

Assim, "Corpo Nômade" consolida-se como uma poética da migração íntima, na qual o ato de caminhar se transforma em uma escrita corporal sobre o solo vulcânico. Ao ressignificar a caminhada como um gesto de pertencimento sem posse, a obra propõe uma reflexão sobre a condição contemporânea do sujeito em trânsito — desprovido de raízes permanentes, porém profundamente enraizado na experiência do caminho. Nas Montanhas Gegham, entre o silêncio ancestral das pedras e a voz dos yazidis que conduzem suas cabras pelas encostas, o corpo em movimento torna-se, enfim, a própria geografia da alma: um lar que só existe enquanto se move.

 

 

 

 

Campos vulcânicos – repletos de cones de escória marrom-avermelhados e rochas vulcânicas avermelhadas.

 

 

 

Vulcão Azhdahak – O ponto mais alto da cadeia de montanhas, com 3.597 metros.